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Portfolio

RAMOS

Rio de Janeiro, Brasil
2009 - 2012

texto de Martin Parr

A praia é um lugar onde as pessoas podem ser elas mesmas: tomam sol, fofocam, nadam, fazem piquenique e compram todo tipo de coisa. Cada país mostra um pouco da sua identidade nas praias, o que só aumenta o encanto desse verdadeiro teatro ao ar livre. No México, por exemplo, as pessoas entram no mar de camiseta; numa praia britânica, temos garoa e cadeiras de lona listradas; e nas praias da Espanha dá para ver, logo cedo, os passeios matinais dos maiores de 50 anos pela beira da água.

Eu adoro fotografar pessoas. Mas o que eu mais gosto mesmo é de fotografar pessoas nas praias. A fotografia de praia se tornou uma grande tradição dentro da cultura fotográfica — comparável, em certo sentido, à fotografia de rua. Como sou um grande fã desse tipo de fotografia, sempre fico animado em ver o trabalho de outras pessoas feito nesse cenário.

Duas vezes já fui completamente surpreendido ao me deparar com um novo conjunto de fotos desse tipo. A primeira foi quando descobri o trabalho de Carlos Pérez Siquier, um fotógrafo espanhol dos anos 1970 que transformava detalhes das praias em imagens gráficas, fortes e coloridas. Isso é ainda mais impressionante se a gente lembrar que, naquela época, a fotografia em cores não era levada muito a sério — era vista como coisa de amador ou publicidade. As imagens de Siquier eram tão diferentes de tudo o que eu já tinha visto que realmente me empolgaram.

A segunda vez foi há cerca de três anos, quando eu estava preparando uma edição da revista C Photo sobre novos fotógrafos latino-americanos para a Ivory Press, em Madri. Foi quando conheci a série Ramos, de Julio Bittencourt. Eram imagens cheias de energia e caos, com uma força visual impressionante. Nunca tinha visto nada parecido numa cena de praia. Mas uma coisa é encontrar um lugar extraordinário e conseguir ter acesso a ele — outra bem diferente é conseguir traduzir o espírito do lugar em fotografias, como Bittencourt conseguiu fazer tão bem.

Claro que incluí as imagens na nossa edição latino-americana, mas também quis muito conhecer o fotógrafo, saber mais sobre o lugar, como ele descobriu aquela praia tão singular e como foi o processo de criação daquele trabalho.

Um ano depois, encontrei Bittencourt em São Paulo, sua cidade natal, e ele me contou a história completa. Ramos é uma praia nova e artificial — uma espécie de “piscinão” (daí o nome popular “Piscinão de Ramos”), cercado de areia e cheio de água do mar. Fica perto de uma praia poluída, a 24 quilômetros ao norte da sofisticada — e muito mais famosa — Copacabana. Bittencourt fotografou em Ramos durante quatro temporadas. No começo, ele ia e voltava, mas depois passou a ficar numa casinha perto da praia. Apesar de ser uma praia de bairro, onde normalmente se poderia esperar uma certa resistência à presença de um estranho por conta de grupos locais que controlam a área, as pessoas foram bastante receptivas. Ainda assim, ele teve a ajuda de um guia local — o Bhega — que facilitava o acesso e ajudava a evitar qualquer problema. Era ele quem dizia ao Bittencourt quando era seguro fotografar e quando era melhor guardar a câmera.

E aí vêm as fotos: uma mistura incrível de corpos, comida, protetor solar e, claro, pele queimada de sol. Ao mesmo tempo atmosféricas e surreais, as imagens são tão vívidas que dá quase para sentir o cheiro da praia.

A gente tem a sensação de estar lá. Bittencourt se aproxima quando precisa, e depois se afasta para mostrar mais do lugar e do contexto.

Todos sabemos que a boa fotografia é, por natureza, altamente subjetiva. Esta é a visão pessoal de Julio Bittencourt sobre o Piscinão de Ramos. Ele transformou a praia em um lugar seu — e esse envolvimento está impresso em cada página deste livro.

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Julio Bittencourt | Rua Pará, 126 01243-020. | São Paulo, Brasil | 07.839.605/0001-10 | Envio: 14-28 dias úteis

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