
NUMA JANELA DE PRESTES MAIA
Prédio 911
São Paulo, Brasil
2005 - 2008
texto de Ronaldo Entler
A fotografia e a metrópole têm uma história em comum: são fenômenos tipicamente modernos, produtos da racionalidade técnica, voltados para as massas como objetos úteis ou dedicados à contemplação. Nessa coexistência, a cidade se oferece à fotografia como suporte, a fotografia acolhe a cidade como tema privilegiado, e tanto uma como outra experimentam crises decorrentes de suas expansões e da pressão de suas fronteiras.
Desde a origem, a fotografia se colocou numa posição ambígua: apresentava-se como forma precisa de registro, mas tentava afirmar-se como manifestação estética aberta à subjetividade. Em vez de enfrentar essa dupla natureza, a história conduziu a uma cisão: de um lado, a orientação documental, o fotojornalismo, a pesquisa científica, a prova jurídica, a denúncia social; de outro, o diletantismo, suas possibilidades de manipulação, seus diálogos com a pintura, depois com os movimentos de vanguarda, a contaminação de outras técnicas, sua presença nas galerias de arte.
A fronteira simbólica que separa a arte da documentação nunca deixou de ser ameaçada pelos dois lados. Hoje, uma invasão mais sistemática e consciente de territórios coloca em risco as categorias que usamos para compreender a fotografia, mas resgata a complexidade e um valor que tardamos em reconhecer.
O que vemos neste trabalho de Julio Bittencourt, vencedor dos prêmios Leica Oskar Barnack 2007 (Alemanha), Portfolio Aperture Award 2007 (EUA) e Fundação Conrado Wessel de Arte 2006 (Brasil), são imagens negociadas, poses que não escondem a interferência do fotógrafo no ambiente. O resultado é assumidamente construído: parte do recorte imposto ao olhar tanto pela pequena distância entre as paredes quanto pelo enquadramento da câmera, para depois recompor a forma do edifício de modo arbitrário.
É um trabalho cuja expressão é engajada, mas que evita a dramatização mediante o rigor de um jogo que o fotógrafo propõe a si mesmo: olhar para as janelas a partir de janelas, algo que traduz bem nossa experiência fragmentária com a cidade. Mas, ao tornar evidente a manipulação, ainda permanece válido como registro, não deixa de nos confrontar com uma realidade, de tocar numa ferida sentida cotidiana- mente, de refletir sobre o percurso da cidade, paralelo ao da fotografia também em seus problemas.
A cidade se expande e constitui uma crise ainda mais problemática, pois encontra a pressão de fronteiras que são tanto simbólicas quanto físicas: não apenas regiões, vizinhanças e zoneamentos, como também paredes e acidentes geográficos. Em sua tentativa de acomodação, constrói, destrói, re- constrói, abandona e redefine seus espaços. Hoje, alguns desejos são unânimes: é preciso revitalizar a cidade. O significado disso, entretanto, é polêmico: modificar suas funções ou apenas a paisagem? Reorganizá-la ou promover uma assepsia? Mudar seus hábitos ou também os habitantes?
Embora estas fotografias não ofereçam uma resposta, dão conta da complexidade das forças que estão em jogo. Mostra a decadência dos materiais e a dignidade que sobrevive por trás deles. Relembra que a matéria da arquitetura não é apenas o concreto, no duplo sentido do termo. Revela o absurdo de um planejamento urbano que não integra, mas que protege as pessoas da cidade, e vice-versa.
Esse é apenas outro encontro entre a fotografia e a cidade, mas muito emblemático do que está por trás das crises de uma e de outra. No final das contas, trata-se de discutir a legitimidade das fronteiras demarcadas ou, em contrapartida, dos movimentos que levam a suas transgressões.


























